sexta-feira, março 21, 2014

A banalidade do mal

Publicado em 21/03/2014 | 

Fiquei chocado com a cena de presos jogando bola com a cabeça de um detento morto por decapitação dentro da penitenciária. Imaginei até que ponto é possível o homem continuar sendo um ser humano, com capacidade de raciocínio e, ao mesmo tempo, perder completamente sua humanidade e qualquer rasgo de sensibilidade. Tentei uma explicação fazendo analogia com o nazista Adolf Eichmann.
Eichmann esteve no comando do transporte de judeus para os campos de concentração na Polônia. Ele não participou da decisão política de extermínio, mas esteve profundamente envolvido na organização do sistema ferroviário que tornou possível a matança de seres humanos apenas porque eram judeus. Eichmann era eficiente, disciplinado, e montou um organizado sistema de trens que partiam e chegavam no horário. Um belo trabalho.
Mas o resultado de seu trabalho foi a morte de milhões de pessoas – incluindo crianças, mulheres e velhos –, que seguiam nos trens eficientes, muitas vezes sem água, sem comida e sob frio extremo. No destino, eram queimados em massa nas câmaras de gás e os mais fortes eram postos em tortura e trabalhos forçados. Tendo fugido para a Argentina ao fim da guerra, Eichmann foi capturado em 1960 pelo Mossad, o serviço secreto israelense, e foi levado a julgamento em Jerusalém.
Adolf Eichmann apresentou-se diante do juiz como uma pessoa normal, um homem a quem ensinaram a ser patriota, a cumprir as leis e a obedecer às ordens. Se o Estado totalitário alemão, sob Adolf Hitler, criou leis tão cruéis, não caberia a ele discutir, mas apenas cumprir sua obra de engenharia com competência. Eichmann nunca matou ninguém, nunca visitou um campo de concentração. Ele apenas construiu trens e um notável sistema de transporte.
Hannah Arendt, a grande filósofa judia que conseguiu fugir às garras de Hitler, foi a Jerusalém para ver como era um monstro de perto. No julgamento de Eichmann, ela ficou estupefata ao notar que ali estava um homem normal, cujo trabalho ajudou a viabilizar a monstruosidade assassina de um Estado totalitário. Foi aí que Hannah Arendt cunhou a expressão “a banalidade do mal”.
Onde a analogia? Por estar impregnada de tanta violência, crime, medo e tragédias, a sociedade brasileira vem produzindo, em cada um de nós, certa redução da sensibilidade e uma quase indiferença diante de vidas assassinadas. Se o crime e a violência ficaram tão banais e tão rotineiros no país, por que a indignação diante da cena de presos jogando futebol com a cabeça de alguém que no dia anterior havia almoçado com eles?
A violência social brasileira está gerando – se não em todos, mas em muitos de nós – a mesma banalidade do mal que o Estado totalitário de Hitler gerou em Adolf Eichmann. A princípio, ele era apenas um homem bom e burocrata competente, que não perdia o sono porque seu eficiente sistema ferroviário transportava mulheres, crianças e velhos para serem mortos nos campos de concentração da Polônia.
Talvez o conformismo venha da constatação de que individualmente podemos fazer muito pouco, a não ser votar, gritar e sair às ruas em protesto.
Este artigo estava pronto quando a imprensa noticiou que um rapaz de Brasília, faltando um dia para completar 18 anos, matou a namorada de 14 anos, filmou tudo e mandou o vídeo aos amigos. Ele não irá para a cadeia, é inimputável. Essa monstruosidade tornou-se normal, não alterou nada e, no máximo, tomou alguns minutos da imprensa. Essa é a sociedade que vamos deixar aos nossos filhos.
José Pio Martins, economista, é reitor da Universidade Positivo


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